segunda-feira, 17 de junho de 2013

Face

     Não concordo! Na voz dela, uma indignação pacífica deixava transparecer sua certeza. Era sempre cheia de certezas. E ele começava a perceber a inutilidade de contestar certezas capricornianas. Ora bolas, como ele se atrevia a afirmar que a maioria, senão todos os frequentadores daquele site de relacionamentos, procurava relações superficiais, pautadas por sexo casual? Tinham se conhecido lá! Estavam namorando. E "sério". Estava lá, publicado no "feicibuqui": "em um relacionamento sério com fulano". Nada podia ser mais "público". Nem mais sério. Ele até criara seu próprio perfil "facebuquiano", apesar de ter jurado de pés juntos que jamais o faria, só para que o relacionamento se tornasse de conhecimento popular.

     Não. Ela definitivamente não era capaz de entender os homens. Ele insistia em afirmar que "os outros" procuravam por sexo, mas ele era diferente. Está bem...talvez o impulso inicial que o levara ao "safari" virtual até pudesse ter sido uma libido ouriçada...mas tudo mudara ao conhecê-la. Certo que mudara. Afinal, ela era uma daquelas mulheres de "apresentar para a família".

    Voltavam então á estaca zero. Era ou não era possível encontrar a "alma gêmea" em qualquer lugar? Qualquer mesmo? Até num site ao estilo "safári virtual"?

     OK. Zero Killed. Ou não. Ela bem sabia que muitas de suas amigas também esvaziavam suas cartucheiras naquele mesmo espaço. Também conversara com alguns moçoilos que já iniciaram a prosa deixando suas intenções bastante claras. Poor things! Três frases trocadas e percebiam que sua munição seria completamente desperdiçada se a alvejassem.

     Então o pensamento inevitável: se ela era tão certa do que queria (perceba-se que não digo "estava" mas "era"), e ele iniciara a história motivado pelo instinto carnal, como chegaram ao atual "status" do relacionamento? O romantismo dela sustentava a teoria do "amor ao primeiro abraço".

     Lembrava-se com uma clareza incomum em suas tentativas de arquivar fatos, de cada sensação, desde o primeiro vislumbre da figura dele. Primeira impressão: baixinho. Segundo seguinte: o olhar. Então veio o abraço. Ah, o abraço, era um capítulo inteiro á parte...

    Poucas coisas ficaram gravadas na memória dela com um traçado tão definido. O primeiro parágrafo iniciava-se com o cheiro dele. Cítrico. Com um leve toque amadeirado. Na sequencia, a textura da pele que roçou o rosto dela - marshmallow. Definitivamente, marshmallow, começava a dar corpo ao texto que o constituiria na vida dela. Havia ainda o calor da mão dele, bem no centro das costas dela. Então, para adjetivar o sujeito, vinha o sorriso argênteo-esverdeado. Doce.

     Quase doze horas mais tarde ela descobriu que esta doçura era concreta, quando sua fase oral mal resolvida a levou a experimentar empiricamente a textura daquela boca desafiadora.

     Neste momento, seus intertextos se entrelaçaram. A maior dúvida era se este entrelaçamento desafiaria a lei da impermanência, que regia as atualizações de status feicibuquianas.

Tati Braga dos Reis

   

   

   

Nenhum comentário:

Postar um comentário