segunda-feira, 20 de abril de 2015

Faxina

     É abril. As águas de março já fecharam o verão mas o calor ainda não se despediu. O céu cinzento e a garoa fina deixam tudo opaco.
     Véspera do feriado de Tiradentes, segunda-feira, folga muito bem-vinda para a maioria mas indiferente para mim, que não trabalho segunda. Dia de "compensação", quando me recompenso para não descompensar de vez.
     Atualmente, há cerca de um ano, é o dia em que faxino, e não apenas a casa. Limpo dos cantos os restos de pensamentos empoeirados, lavo os porquês, estendo os arrependimentos ao sol, espano emoções ao som de Chico Buarque e me inspiro de novas poesias com as mãos no detergente. É...deter a gente é fácil, difícil é deter a mente entupida de pendências.
     Depois de enxaguar as mãos e as dúvidas revejo amores passados, pendurados nos cabides de trás e resisto à tentação de vestí-los mais uma vez, só para ver se ainda serviriam. Percebo que o último amor desbotou mais do que eu previa e me pergunto se a razão disto é a minha falta de cuidado ou a qualidade do produto. Termino concluindo que é melhor ter cautela para evitar o desgaste precoce e prossigo com a organização.
     De tempos em tempos paro para um chá, um capuccino, um quintana, um leminski ou um forró bem pegado na frente do espelho. Depois gasto dois ou três minutos para flertar com o rosto suado e rosado, de olhos brilhantes que me namora. Reparo que é a mesma que me espia no reflexo, depois de um orgasmo. Gosto dela, é um misto de Baba Yaga e Capitu, que se sacode inteira quando Clara Nunes se convida pelo radio.  
    Logo depois da dança, a limpeza continua -  não posso perder o ritmo, a previsão para amanhã é de dia ensolarado, então coloco a roupa e as renúncias para lavar, pois iremos precisar delas durante a semana.
   
   
   

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